TRATUTOR

quinta-feira, 3 de março de 2011

TRADIÇÕES DOS JUDEUS ITALIANOS

A ligação com os próprios ritos e com as cerimônias nas sinagogas (nos templos religiosos) sempre representou, no judaísmo como em todas as outras religiões, a ligação mais autêntica com a tradição. Os judeus italianos seguem quase todas as tradições das comunidades judaicas na Europa e fora dela, porém apresentam particularidades próprias que os tornam, de certa maneira, distinguíveis e diferentes das outras comunidades judaicas que se encontram no mundo. A primeira delas é a de chamar-se hebreus e não judeus, característica esta existente somente entre os judeus da Rússia, que usam a palavra Yvrei.
A pesquisa sobre o folclore dos judeus italianos apresenta as mesmas dificuldades que a história das tradições populares dos não-judeus. A pesquisa, em ambos os casos, torna-se difícil devido à dificuldade em obter informações, agravada pelo inevitável passar dos anos e pelo progressivo desaparecimento das fontes orais.
O judaísmo italiano foi uma espécie de kibutz galuiot, isto é, um agrupamento de diásporas que, de vários paises e durante séculos, trouxeram consigo as suas tradições. Estas correntes imigratórias, que transformaram a Itália em uma importante encruzilhada histórica e geográfica de diferentes tradições, contribuíram enormemente para o enriquecimento da literatura e do pensamento judaicos.
Da instalação do primeiro e segundo núcleos de judeus, formados por aqueles que se encontravam em Roma e no sul da Itália antes da destruição do Segundo Templo, e aqueles que chegaram a Roma em conseqüência dessa destruição em 70 e.c., deriva o ritual de orações italianas do Mahazor bene ‘Romi, livro de orações dos filhos de Roma, também chamado de Minhag ha Lo’azim, ou daqueles que falam línguas estrangeiras. Características deste rito são algumas pequenas diferenças nas orações, como, por exemplo, um maior número de tahanunim; o uso da palavra keter no lugar de hacdisach; Iom Aravá no lugar de Hoshana Raba. Em um minúsculo e  muito antigo livro de orações a ser lidas à noite antes de dormir, encontram-se orações diferentes para cada dia da semana. Algumas das letras, especialmente aquelas que indicam o nome de D’us, têm um formato diferente daquele convencional.  Um certo número de piyyutim foram tirados do mahazor antes da invenção da imprensa.
A primeira edição deste rito, chamada Mavo le-Mahazor Benei Roma, foi impressa em Casal Maggiore pelos Soncino, em 1485/86.
Outra característica da liturgia italiana é a leitura do Cântico dos Cânticos na festa de Pessach. O costume é devido às muitas expressões de exaltação da primavera contidas no mesmo, sendo essa a época na qual a festa ocorre na Itália. Outras comunidades italianas lêem o Cântico no início do sábado, como preparação espiritual para acolher dignamente o “sábado rainha”.     
Além disso, examinando um Lunário  italiano, observa-se que, nas datas relativas ao shabat e às festividades, estão marcadas as leituras das haftarot, as quais variam de acordo com o rito sefardita e o rito italiano. Por exemplo: quando é lida a haftará tirada do segundo Livro dos Reis, no rito italiano lêem-se os parágrafos 12, 1-17, enquanto no rito sefardita o 11, 17-12, 17. O rito italiano é usado em várias regiões da Itália, em algumas comunidades de Salônica e Constantinopla, e também na sinagoga italiana de Jerusalém.
É interessante salientar que os cantos sinagogais italianos têm uma musicalidade toda especial e a leitura das parashot, haftharot e dos salmos, tem uma intonação muito singular. Não existem canções litúrgicas em dialeto judaico-italiano, do qual falaremos a seguir, com exceção do bagitto, o dialeto judaico-livornês, do judaico-corfiote de Trieste, e do judaico-piemontês. A única coleção sistemática de melodias sinagogais tradicionais é aquela coligida por Federico Consolo: Libro dei canti d’Israele (1892), que abrange a tradição sefardita de Livorno.
As várias correntes imigratórias, para não renunciar ao próprio patrimônio de recordações e de melodias sacras, construiram casas de oração para cada um dos respectivos rituais: o asquenazita, ou alemão, trazido pelos judeus da Alemanha, Áustria e Polônia (1348), da França (1306-1394) e da Espanha e Portugal (desde 1492 e durante todo o século 16).  É interessante notar que os judeus franceses introduziram na Itália o seu rito, de nome Apam, ou, mais corretamente, Afam, nome que deriva das iniciais hebraicas das três cidades do Piemonte, Asti, Fossano e Moncalvo, onde era praticado.
No capítulo seguinte, abordarei as mais importantes tradições dos judeus italianos, aqueles chamados “os remanescentes” por Roberto Bonfil, no capítulo intitulado “A presença sefardita na Itália” do livro Ibéria Judaica: Roteiro da Memória  .
Em Roma, na primeira metade do século 16, existiam aproximadamente dez sinagogas, cujos nomes eram: Escola do Templo,  Nova, das Quatro Mentes, de Portaleone, Castelhana, Catalã-Aragonesa, Siciliana, dos Franceses, dos Alemães. A origem do nome das escolas indicava a procedência dos judeus que a elas pertenciam e que se diferenciavam entre si por seus ritos de origem. Na Escola do Templo, na Escola Nova e na Escola Siciliana, rezava-se segundo o antigo rito italiano. O nome de Escola ou Escola Templo, afirmava o aspecto educativo do centro religioso e tal nome foi mantido até a época da contra-reforma.
Com a construção do gueto, em julho de 1555, foi proibida a existência de mais de uma sinagoga e os judeus romanos foram obrigados a demolir algumas das sinagogas e reunir as cinco principais, do Templo, Nova, Siciliana, Castelhana e Catalã-Aragonesa, em um único edifício em uma praça que desde então teve o nome de Praça das Escolas. Estas sinagogas continuaram as celebrações até a construção do atual Templo Maior (1904) .
As antigas sinagogas italianas que se encontravam dentro dos guetos, apresentavam um aspecto exterior bastante modesto, ao passo que seu interior era muito rico e repleto de decorações artísticas. Esta característica foi desaparecendo no século 20 e as últimas sinagogas foram construidas em estilo rebuscado, seguindo uma tradição comum na Europa após a emancipação dos judeus, tendo o aspecto exterior se tornado especialmente bem cuidado copiando, muitas vezes, a arquitetura das igrejas cristãs. Comum a todas as sinagogas de rito italiano é a localização da Tevá (o local em que se lêem as orações), que se encontra exatamente no centro da sinagoga, diante do Aron (o armário dentro do qual são colocados os rolos da Torá). Na maioria dessas sinagogas, há uma escadaria decorativa para se chegar à Tevá.
A comunidade de Roma ainda celebra, nos dias atuais, o 2 de Shevat, em memória de uma tentativa de incendiar o gueto no ano de 1793; esse dia é conhecido com o nome de “Mo’ed de chumbo”. A origem do nome é incerta. De acordo com os anciãos da comunidade, ele seria devido ao fato de que, quando o fogo foi iniciado pelo populacho nas portas do gueto,  nuvens espessas cobriram o ceu, que se tornou da cor do chumbo, e depois caiu uma fortíssima chuva, que apagou o incêndio incipiente.
Outra tradição judaica romana é a Mishmará (vigília), que costuma ser feita na véspera da circuncisão e em outras ocasiões festivas (maioridade religiosa, casamentos, imposição do nomes às meninas, etc.). Durante essa cerimônia parentes, familiares e amigos reunem-se para ler passagens da Biblia e composições litúrgicas de um Formulário adequado.
O que mais chama a atenção na leitura dessas obras é que a vigília derivava da religiosidade popular, para zelar, ou melhor, vigiar a criança antes da circuncisão e evitar  que fosse corrompida pelas promessas de “demônios”, especialmente as de Lilith. Esse fato é confirmado por Leão de Modena , o qual acrescenta que, antes do nascimento da criança,  quadrinhos ou boletins eram colocados nos quatro cantos do quarto da parturiente, onde estava escrito Adão e Eva, fora Lilith, e o nome dos três anjos protetores: Sonoi, Sansenoi e Semnaghellaf.          
Quando esse costume caiu no esquecimento e não sabendo onde colocá-los, os judeus de Roma os colocaram, e ainda o fazem atualmente, nas lojas, como bênçãos e augúrios de prosperidade e sucesso nos empreendimentos. Cada um desses quadrinhos contém seis linhas escritas, contornadas por uma moldura na qual é citado um versículo da Bíblia .
Por ocasião de Rosh-Hashaná, existem costumes familiares peculiares que  contribuem para dar à solenidade um ar característico e único. Um deles é o uso de alimentos (bocadinhos), que se comem na noite em que a festa se inicia, logo após a reza do Kiddush. A eles são atribuidas alusões ocultas de bons votos para o ano que vai se iniciar, na esperança de que Deus abençoado torne menos severo o julgamento que irá fazer. O número de bocadinhos que serão consumidos varia de cidade para cidade.
Em algumas comunidades italianas, na noite de Rosh-Hashaná espalha-se grãos de trigo pela mesa deixada enfeitada, sempre com o objetivo de que o ano, que há pouco se iniciou, seja portador de prosperidade e abundância.
Nas comunidades de Asti, Fossano e Moncalvo, costuma-se comer, no lugar da maçã com mel, figos açucarados.
Além disso, em Rosh-Hashaná, era costume na antiga comunidade de Roma deixar crescer – duas ou três semanas antes da festa – duas espécies de cereais, trigo e milho, como auspício de prosperidade e abundância para o ano que se iniciaria. A ADEI , a Wizo italiana, em lembrança desse costume, envia a todas as suas sócias, um mês antes da festa, um saquinho com grãos de trigo para plantar no algodão e manter no escuro por seis dias, para que, por ocasião da festa, o trigo tenha crescido e sirva como augúrio de prosperidade (Nello Pavoncello).
Com o nome de Pizzarelle, é conhecido um canto tradicional dos judeus de Roma, de autor desconhecido, composto por um mosaico de citações bíblicas, muito popular por sua melodia alegre e fácil de aprender. É cantado na sinagoga no final da oração da manhã, nas três festas de Pessach, Shavuot e Sucot, e tomou seu nome justamente de um doce romano típico de Pessach.
O prof. Faldini, citado nas notas, contou-me que sua avó, em Shavuot, para lembrar às crianças o dia da entrega das tábuas da Torá, fazia uma torta de amêndoas (deliciosa) chamada Sinai e que, em Purim, os famosos doces orelhas de Aman, não tinham o formato triangular usual.  

O costume dos judeus romanos de comer cordeiro assado em Pessach, teria sido introduzido pelo rabino Todos , líder espiritual da academia rabínica de Roma, à qual se dirigiam alunos de todas as regiões da diáspora . Por este costume, Todos foi severamente repreendido pelas Academias da Terra de Israel, que disseram que, com este costume, ele estaria dando a impressão de autorizar os sacrifícios sagrados feitos fora do santuário de Jerusalém .
Quanto aos nomes, sabemos, pelas inscrições, que antigamente os judeus não se diferenciavam dos grego-latinos. Muitos tinham, como os romanos, um prenome (o nome pessoal que se antepõe  àquele da família), o nome e o sobrenome. O nome frequentemente era o do patrão que os libertara da escravidão, o sobrenome muitas vezes era a designação do país de origem. Nas catacumbas, encontram-se judeus cujas inscrições mostram até mesmo nomes mitológicos, ou ainda um nome traduzido do hebraico para o latim.
Enquanto por parte dos cristãos na Itália, o processo de assumir um sobrenome teve início  logo depois do ano 1000, e virtualmente se completou no Quatrocentos, entre os judeus tudo ocorreu depois, e mais lentamente. Os primeiros judeus italianos começaram a ser conhecidos somente no Trezentos, e os últimos, os mais pobres, acabaram assumindo seus sobrenomes no Seiscentos. É preciso notar, porém, que todos os judeus italianos, antes de ter no sobrenome um segundo sinal distintivo, possuiam um outro próprio deles, ainda que um tanto genérico: quando citados pelos cristãos,  eram sempre qualificados como hebreus ou judeus, como um sufixo ao nome pessoal. Tal identificação não era considerada ofensiva, mas puramente identificativa
A escolha dos nomes pessoais masculinos tinha inspiração nos personagens da Bíblia, ao passo que nos feminimos predominava o gentil costume de lhes dar nomes que lembrassem imagens ou augúrios de dotes femininos: Bela, Doce, Flor, Diamante, etc. etc.
Os atuais sobrenomes das famílias judias italianas consistem, em sua maioria, dos nomes das respectivas localidades de origem, que tornaram-se sobrenomes na segunda metade do século 15. Isto não era uma exclusividade dos grupos judaicos, porque alguns sobrenomes cristãos tinham a mesma característica, mas entre os judeus esta peculiaridade sobressai pela escassez de raízes diferentes de sobrenomes, devido à exiguidade dos núcleos e a uniformidade das estruturas sociais dos mesmos. Exemplos de sobrenomes italianos são: Viterbo, Perugia, Di Segni, Di Cori, Campagnano, etc., nomes esses de cidades ou aldeias italianas. Se marcarmos em um mapa os sobrenomes conhecidos dos judeus italianos, teremos um quadro exato de como se distribuiam, no início do Quinhentos, aqueles que os usavam .   
A vida em um mundo pequeno, como era, por exemplo, aquele dos judeus romanos à época do gueto, caracteriza-se, até os nossos dias, por costumes que, quando arraigados, tornam-se tradições. Eles surgem geralmente na parcela menos favorecida do povo, para depois tornarem-se apanágio de toda a população. O apelido é um desses costumes tradicionais que surgem para diferenciar os numerosos casos de homonímia, e também para destacar, com humorismo, uma característica particular, um aspecto físico, o caráter, a profissão ou a origem de uma pessoa . Às vezes, o apelido tornava-se parte do sobrenome. Nesse sentido, é notável o caso do sobrenome Finzi-Contini, famoso devido ao livro de Giorgio Bassano (O jardim dos Finzi-Contini) e ao filme do mesmo nome. Tive a oportunidade de conhecer em Florença um descendente da família, o engenheiro Giovanni Finzi-Contini, poeta e escritor, que contou-me a origem desse nome duplo: um seu antigo descendente de Ferrara, um certo Jacob Finzi, tinha aparência e maneiras tão aristocráticas que lhe foi dado, em dialeto ferrarês, o apelido al conten (o jovem conde). Esse apelido passou depois para toda a família, que, em 1897, o registrou no cartório de Ferrara sob a forma Finzi-Contini.
Uma regra de direito familiar refere-se à poligamia. Em princípio, ela não era de todo excluída, exceto para os judeus de origem alemã que seguiam a proibição absoluta declarada, logo depois do ano 1000, pelo célebre rabino Ghershóm bem Iehuda de Mangonza, e que continuaram a segui-la na Itália. Essa proibição teve uma enorme influência também sobre os judeus italianos e os de origem espanhola, a ponto de serem extremamente raros os casos conhecidos de bigamia na Itália: alguns poucos em todos os séculos a partir do Duzentos. A autorização, que era concedida a quem não tivera filhos com a esposa por um mínimo de dez anos, era acompanhada da obrigação de que a segunda esposa habitasse em uma cidade diferente da primeira, e solicitava a permissão da maior autoridade local, fosse ela o papa, um rei, ou príncipe. Estas leis desapareceram definitivamente com o código civíl italiano de 1865 que, impondo a todos os cidadãos italianos a obrigação do casamento civíl, tornava nula qualquer outra resolução.
Outra característica dos judeus italianos é o grande número de insígnias e brasões que coroam seus nomes. Brasões de família foram encontrados nas ketubot, nas páginas de rosto de livros, sobre lápides, nas poltronas, encadernações de livros de orações, coroas da Torá e rimonim. A identificação da família foi sempre possível graças à presença de uma inscrição explicativa em hebraico, contendo por vezes até mesmo a data e o nome da sinagoga à qual a família pertencia. Em geral eles eram usados não como símbolo de nobreza, mas como referência às atividades mercantis da família. Aparentemente, a introdução dos brasões na Itália se deu após a chegada dos judeus espanhóis. Os judeus espanhóis, especialmente os novos-cristãos, trouxeram para a Itália os brasões das famílias que os haviam apadrinhado e isto provocou grandes problemas internos entre as comunidades sefarditas e italianas. Os italianos, cuja cultura e situação financeira eram frequentemente piores, não desejavam parecer inferiores aos seus irmãos sefarditas e, uma vez que na Itália os brasões não eram uma prerrogativa dos nobres, adotaram o uso de brasões para as famílias sacerdotais, como os Coen, Sacerdote e Levi, etc., e também para confirmar as atividades mercantis das famílias. Isto parece estar em contradição com a existência de brasões judaicos em Roma e no resto da península em época precedente à chegada dos espanhóis, ou seja, após 1492. Na verdade, o brasão firmou-se na Itália entre a Idade Média e o Renascimento nas classes dos mercadores e banqueiros, tanto judeus como cristãos, não só pelo desejo de auto-afirmação e pela rivalidade com a nobreza, mas também, e sobretudo, por exigências práticas, como testemunho de propriedade sobre objetos pessoais, bens ligados ao comércio, e sinetes. Conhecem-se brasões de judeus romanos desde o século 13: em um machazor da Biblioteca Casanatense   de Roma, há uma miniatura do brasão de David ben Ruben há-Rofé (David, filho de Ruben, o médico). A grande multiplicação dos brasões judaicos ocorreu em Roma durante o isolamento no gueto (1555-1870). Naquele período, muitos adotaram um sobrenome que, frequentemente, derivava do nome da  localidade onde suas famílias haviam vivido antes de serem isoladas. Como muitas famílias provinham do mesmo lugar e usavam um sobrenome idêntico, o brasão servia para diferenciá-las umas das outras .
A tradição das ketubot ricamente decoradas difundiu-se de maneira acentuada entre os judeus italianos e, em especial, entre as famílias judaicas romanas. Uma característica interessante que distingue as ketubot romanas de todas as outras, até mesmo das outras italianas, é o formato do pergaminho, que tem uma extremidade em ponta, às vezes chanfrada ou arredondada à medida que desce. E até hoje não é possível dizer se este formato nasceu por acaso, e depois continuou sendo seguido como tradição por toda a comunidade, ou se foi escolhido para facilitar o fechamento da ketubá com uma fita após a mesma ser enrolada.
Nello Pavoncello, em seu artigo “A vida cotidiana dos judeus da Roma dos Césares”, escreve que os judeus de Roma eram originários, na maior parte, das colonias gregas, de onde tinham vindo, juntamente com comerciantes e homens de negócios. Nessas colônias eles eram muito próximos da cultura então dominante e tomavam parte ativa em seu desenvolvimento. A prova está no idioma grego que falavam quando chegaram a Roma, em prejuizo do idioma hebraico. O conhecimento do hebraico não era muito comum entre os judeus, na verdade, alguns decênios após a sua chegada ele não era mais falado, mesmo porque na Palestina daquela época, durante o período da dominação romana, falava-se quase que exclusivamente o grego.
Em seguida, à medida que o latim se transformava na língua italiana popular, os judeus, assim como o restante da população não judia, exprimiam-se nos idiomas locais. Contudo, o idioma usado no culto continuou a ser o hebraico.
Até a contra-reforma, os judeus não sofreram perseguições na Itália; houve arbitrariedades esporádicas, como a queima de textos sacros, imposição de taxas, muitas discriminações, proibição de relações sexuais com cristãos. A verdadeira perseguição começou quando o papa Paulo IV, em 1555, instituiu o gueto. A permanência nos guetos durou três séculos, da metade do Quinhentos até a metade do Oitocentos, terminando com a unificação da Itália e a tomada de Roma. O fenômeno mais aparente desta longa segregação foi a criação de dialetos fechados, de linguagens crípticas, com a finalidade de fazer-se entender somente pelos correligionários. Como os judeus fechados nos guetos estavam privados de contatos contínuos com o ambiente exterior, a primeira característica que chama a atenção nesses dialetos é o sabor arcaico que conservam em relação à linguagem usada fora do gueto pelos não-judeus. Além disso, os dialetos dos guetos eram enriquecidos por numerosos termos provenientes da diáspora, termos espanhóis, portugueses, e ídiche. Tinham também uma origem popular e, portanto, conservavam o “tempero” dialetal da região geográfica de origem. Os dialetos dos guetos ficaram desconhecidos até a metade do Oitocentos, quando, em seguida aos movimentos de emancipação, os guetos foram fechados. Os judeus, livres de sua reclusão, foram morar nos bairros abertos das cidades e, entrando em contato com os outros habitantes, começaram a assimilar-se. Para os seus dialetos, chamados de judaico-italianos, começaram o declínio e a decadência.
Na Roma antiga os judeus costumavam vestir-se como os gregos e os latinos, exerciam e praticavam todas as profissões e ocupações costumeiras dos romanos, e muitos exerciam a profissão de médicos. Os escritores latinos contam sobre judeus carregadores, adivinhos, atores, mímicos, e até mesmo mendigos. Durante séculos usaram os mesmos trajes que os outros italianos, com ou sem o sinal de identificação, de acordo com a vontade do senhor que governava a região onde habitavam. Durante o Renascimento, os judeus não se diferenciaram dos italianos que, naquele período, alardeavam luxo e bom gosto, como nos mostram as pinturas da época. Especialmente nesse período, os judeus de Veneza, Ancona e Livorno exibiam-se usando ricos turbantes e trajes esplêndidos que haviam trazido de suas pátrias. Porém durante quase todo o período de sua permanência na Itália, sempre durante as festas de família, os judeus italianos gostavam de exibir  ricos trajes, presentes, e, aqueles que o podiam fazer, adereços e jóias, a tal ponto que seus governantes, impressionados com essa perigosa ostentação, por várias vezes intervieram até mesmo através dos colegiados, para contê-la. Por exemplo, a comissão dos representantes das maiores comunidades italianas do centro-norte, reunida em Forlí em 1418, havia sancionado uma lei suntuária bastante  rigorosa sobre o assunto mas aqueles que  deviam segui-la a consideraram somente uma recomendação pedante. Todavia, alguns decênios após o início dos guetos, as várias comunidades judaicas começaram a emitir as pragmatiche, ou regras a serem observadas pelos judeus para o seu próprio bem, a fim de não tornar público um luxo desenfreado e fora de lugar que chamaria a atenção dos nobres.  
Como nas vestimentas, assim nos divertimentos. Em uma Itália que, durante o Renascimento, imperava sobre todos no saber viver e saber divertir-se, os judeus também foram levados a imitar esta agradável arte. Festas, banquetes e bailes eram comuns entre eles nessa época e especialmente durante as festas de Purim e Simchat Torá. Em 1592, alguns judeus de Módena formaram uma companhia teatral que teve o privilégio de apresentar-se como companhia estável na corte dos Gonzaga.
Os judeus também aderiram à moda dos italianos ricos que possuiam vilas no campo, de passar as festas e as férias fora da cidade. Famílias de ricos banqueiros judeus, como os Volterra, os da Pisa e os da Camerino, possuiam, no final do Quatrocentos, vilas nos  condados. Até mesmo os menos ricos passavam férias no campo, naturalmente de maneira mais simples.
No que diz respeito ao casamento, penso que as tradições sempre foram basicamente as mesmas para todos os judeus europeus. Creio que havia somente uma diferença: do dote da esposa, uma parte devia ser investida na única propriedade imobiliária a que os judeus tinham direito na época do gueto de Roma, ou seja, em jus gazzagá (em hebraico chazaqáq equivale a possessão). Este era um direito de inquilinato perpétuo ao qual tinham direito e que foi de grande ajuda para os judeus do gueto porque, em sua difícil situação, lhes assegurou  ao menos um teto modesto, mas impossível de achar. E os judeus, com sua inventividade comercial, fizeram desse direito perpétuo de inquilinato o substituto interno do direito à propriedade imobiliária que já haviam perdido. Dentro de seu círculo, venderam, hipotecaram, deram como dote, transferiram em herança ou em legado, o jus gazzagá; e quando foram libertados do gueto, a ele renunciaram relutantemente.
Anna Rosa Campagnano

5 comentários:

  1. gostei bastante..sou judio de origem italiana..minha familia sao descendentes dos matarazzo..como não podiam se intitular judios.eram camufldos de cristoes..asssim é a vida.
    luici fernando levi matarazzo

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  2. minha familia é judia de origem Italiana e nunca vi meu sobrenome em nenhuma lista de sobrenomes judaicos ! sou da familia Sabino

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  3. Forato é de Veneto, será um sobrenome judaico?

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  4. Meu avos maternos é sobrenome Gagno Furlan gostaria de saber se são judeus

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  5. a unica coisa que tenho da Italia é so o Nobre sobrenome Gonzaga

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